Primeiramente vou contar
a vocês, como consegui parar de fumar.
Sofri de pressão alta por cinco anos. Foram cinco
anos de idas e vindas ao Pronto-Socorro regularmente.
Tentei por várias vezes
parar de fumar e o máximo que conseguia eram dois dias, e quase que entrando
em estado de choque pela falta do cigarro.
Um dia estava conversando
com uma veterana, companheira do Coral, sobre o meu problema e ela muito
sabiamente me orientou para que determinasse com mais firmeza o meu
objetivo. Sugeriu que participasse da entrega dos impressos, por exemplo.
Resolvi seguir suas orientações e decidi que não só participaria da entrega
dos impressos, como também entraria para o Keibe e para o grupo Mamorukai.
Sofri muito nos primeiros
meses mas venci, graças a minha prática sincera e as orientações desta
veterana.
Minha pressão se
estabilizou e hoje se altera esporadicamente. Já se passaram três anos sem o
maldito cigarro.
Com o passar do tempo,
fui adquirindo sabedoria, e passei a encarar um problema muito sério que
tinha, mas que não admitia, ou não conseguia enxergar como problema.
Descobri que era
alcoólatra.
Sou filha de pai
alcoólatra e sofri minha infância toda devido a isto.
Meu pai nos expulsava de
casa quase que diariamente, nos ameaçava com revólver, facas, quebrava tudo
o que havia dentro de casa e nos humilhava com os piores palavrões que vocês
possam imaginar. Tínhamos que nos abrigar na casa de minha avó, onde já
viviam cinco pessoas em dois cômodos precários. Dormíamos em esteiras pelo
chão de tijolo da cozinha.
Meu pai era uma pessoa
muito boa, sem beber, mas a bebida o transformava.
Sofremos muito com isto,
ele por muitas vezes tentou parar de beber, mas não conseguiu.
Minha família se
despedaçou quando completei 18 anos.
Minha mãe nos chamou e
comunicou que estava indo embora definitivamente de casa. Que não podia
alugar uma casa para ficarmos juntos, então, que cada um se virasse como
pudesse.
Fomos cada um para um
lado. Minha mãe para uma pensão, eu para outra mais próxima ao meu trabalho,
meu irmão mais velho para outra e o do meio, que não estava trabalhando, foi
morar com minha avó.
Resumindo, alguns anos
após, meu pai foi encontrado morto por um vizinho, sentado em uma poltrona
em sua casa.
O alcoolismo com certeza
é um de meus carmas pesados.
Tive a felicidade de
descobrir que sou alcoólatra graças a minha prática. Vocês devem estar
pensando, mas isto é felicidade?
Para mim foi uma grande
felicidade. Pois se não fosse a minha prática, não teria a sabedoria para
descobrir este problema.
A minha família também
estava se despedaçando tal qual a do meu pai.
Minhas filhas foram morar
sozinhas, tão logo completaram 18 anos. Uma após a outra.
Com certeza, morar comigo
deveria estar sendo insuportável.
A partir daí, comecei a
lembrar de tudo o que já havia feito devido à bebida. Estava seguindo os
mesmos passos de meu pai.
Quantas vezes dirigi
alcoolizada com meus filhos no carro. Quantas vezes briguei com eles,
gritei, bati e ofendi.
Fui me afastando cada vez
mais de meus filhos. Só pensava em beber e me divertir.
Aconteceu que depois que
eu parei de fumar, passei a beber ainda mais, como que para compensar a
falta do cigarro.
Eu já estava praticando
mas ainda não tinha a consciência do meu problema.
Determinei parar de
beber. Sabia que estaria iniciando uma batalha muito difícil, mas tinha a
certeza de que não existe oração sem resposta, que eu haveria de ser
vitoriosa.
Eu não estava praticando
apenas porque achava o budismo uma religião bonita. Eu estava e estou
praticando porque acredito, tenho fé, creio no meu Gohonzon e
conseqüentemente em mim mesma.
Em “Sobre atingir o
estado de Buda”, há uma passagem que diz: “Se o senhor deseja livrar-se dos
sofrimentos de nascimento e morte que vem suportando por eras eternas e
deseja alcançar a suprema iluminação nesta existência, deve despertar para a
verdade mística que sempre existiu dentro de sua vida. Esta verdade é o
Myoho rengue kyo. Recitar o Myoho rengue kyo, portanto capacitá-lo-á a
compreender a verdade mística dentro de sua vida.”
Determinei fazer no
mínimo 3 horas de Daimoku diárias por 100 dias consecutivos. E se preciso
fosse, renovaria minha determinação por mais cem dias.
Quantas vezes acordei às
3 horas da manhã para fazer Daimoku nos dias de Mamorukai no CCCamp! Não
havia domingo nem feriado sem Daimoku.
Já se passaram dois anos
que eu venci!
Tenho a certeza absoluta
que nunca mais vou beber. Nem foi preciso renovar minha determinação porque
dentro destes cem dias eu já havia conseguido.
Hoje posso me orgulhar
desta vitória e posso estar contando a vocês porque tenho certeza que nunca
mais vou beber! (bebida alcoólica claro)
Quem pôde comemorar
comigo meus três anos de conversão, viram meus filhos me abraçando,
orgulhosos de mim.
Com certeza esta foi a
minha maior vitória.
Eu havia determinado que
transformaria meus filhos em grandes valores humanos.
Infelizmente o meu carma
se manifestou mais uma vez, tragicamente em minha vida.
Fiquei viúva aos 28 anos,
devido a um acidente de carro. Minhas filhas estavam com 4 e 6 anos.
Na época, estava longe de
eu conhecer o budismo, então não tinha compreensão do que é carma, lei de
causa e efeito, etc.
Fiquei revoltada, me
sentindo a mais infeliz das pessoas. Não podia ver ninguém sorrindo que
tinha vontade de bater nesta pessoa. Como podia alguém estar sorrindo,
feliz, e eu sofrendo tanto?
Após um ano, ainda
sofrendo os efeitos da incompreensão, tive anorexia nervosa, ficando
internada em uma clínica em São José dos Campos por três meses e precisei de
acompanhamento psiquiátrico por mais de um ano, tomando medicamentos
fortíssimos.
Agora, como vocês sabem,
perdi minhas 2 filhas e meu genro, também de acidente de carro.
É uma dor que vocês não
tem idéia, só quem passou por isto sabe definir, sabe explicar.
Quando soube do acidente,
sem saber ainda da gravidade, enquanto esperava por mais notícias, abri meu
oratório e orei ao gohonzon, determinando que fosse o que fosse que tivesse
ocorrido, que eu seria forte o bastante para suportar, e teria forças para
continuar minha luta pelo kossen-rufu.
No gosho “Carta aos
irmãos” consta que “Se professar o verdadeiro budismo, os sansho shima
surgirão em sucessão. Por este motivo, jamais deverá ser influenciado ou
amedrontado por eles. Se cair sob suas influências, será levado ao caminho
do mal e se ficar amedrontado por eles, será impedido de praticar os ensinos
do Verdadeiro Budismo.”
Ainda em “Carta aos
irmãos”, Nitiren diz que “Temos de ser os senhores de nossa mente, e não
deixar que nossa mente nos domine.”
Já chorei muito, choro
ainda, quando aperta a saudade, mas procuro não ficar pensando muito.
Longe de querer me
comparar ao Presidente Ikeda, mas ele perdeu um irmão na guerra, e mais
tarde perdeu também uma filha, e jamais desistiu. Hoje, na idade em que
está, luta como nunca. Eu como sua discípula, tenho o dever de jamais
desistir, haja o que houver.
Na realidade, minhas
filhas não morreram, apenas estão passando para outra vida e com meu daimoku
de mãe e o daimoku de vocês, meus amigos, elas renascerão em um estado de
vida superior, com certeza em uma família praticante.
Compreendi que elas
tinham uma missão nesta existência, porque eu comecei a praticar o budismo
por sofrer com desarmonia familiar, principalmente com elas. Não entendia
que a causa estava em mim.
Por este problema, me
entreguei a esta religião maravilhosa, procurando fazer minha prática
corretamente, me dedicando a leitura dos impressos, ao estudo, participando
de todas as atividades, fortalecendo cada vez mais a minha fé.
Sem a fé, a prática e o
estudo, não conseguiremos transformar nada em nossas vidas. O estudo foi
fundamental para que eu compreendesse o ciclo de nascimento, doença, velhice
e morte, e foi fundamental para que eu pudesse passar este conhecimento a
outras pessoas que estavam sem compreensão e com isto, sofrendo muito.
Devido a este estudo, que
eu me dedico, pude passar tranqüilidade e serenidade para meu filho que tem
apenas 12 anos e era muito apegado às irmãs.
Meu relacionamento com
minhas filhas ficou ótimo, nos tornamos grandes amigas. Através de meu
daimoku, elas também melhoraram muito como seres humanos. Mesmo não morando
juntas, estávamos sempre juntas, sempre nos falando nem que fosse por
telefone. Elas me respeitavam e eu as respeitava. E acima de tudo, nos
amávamos.
Se não fossem minhas
filhas, eu não teria procurado fazer minha revolução humana. Nós não mudamos
nossa personalidade através da prática, apenas eliminamos o que não presta e
fazemos evidenciar o que há de melhor em nós.
Aí terminou a missão
delas para comigo. Mas não terminou a mais importante missão que elas
tinham. A de propagar o budismo através de sua morte. Muitas pessoas estão
me procurando e procurando outros membros para saber sobre o budismo que
ficaram conhecendo com a morte delas.
Esta missão também é
minha porque quem tem de dar continuidade à propagação agora sou eu.
E eu determino aqui que
vou dar o melhor de mim, podem ter certeza disto.
Para isto, também conto
com vocês, e preciso que todos vocês se dediquem ao estudo, para me ajudar
nesta missão de transmitir o ensino às pessoas de nossa sociedade. Nosso
lema é: “Caçapava de contínuas vitórias”, e agora chegou a nossa hora.
Precisamos estar bem preparados para os questionamentos que virão. Por isso,
dedique-se ao estudo com afinco, porque existem pessoas que não se contentam
em comer o bolo para depois pedir a receita, elas querem a receita inteira,
bem explicadinha, para depois experimentarem o bolo.
Agradeço a todos que me
apoiaram e me confortaram neste momento difícil de minha vida, especialmente
aos amigos Carlos Tavares e Fátima Lima que não pouparam esforços para
aliviar a minha dor.
Para finalizar, quero ler
para vocês um poema do presidente Ikeda, que é o meu lema:
“Existe uma estrada
E esta estrada é a estrada que eu amo.
Eu a escolhi.
Quando trilho esta estrada
As esperanças brotam
E o sorriso se abre em meu rosto.
Desta estrada nunca, jamais fugirei.”