Relato de Experiência
Carmén Silva Soares


Primeiramente vou contar a vocês, como consegui parar de fumar.

Sofri de pressão alta por cinco anos. Foram cinco anos de idas e vindas ao Pronto-Socorro regularmente.

Tentei por várias vezes parar de fumar e o máximo que conseguia eram dois dias, e quase que entrando em estado de choque pela falta do cigarro.

Um dia estava conversando com uma veterana, companheira do Coral, sobre o meu problema e ela muito sabiamente me orientou para que determinasse com mais firmeza o meu objetivo. Sugeriu que participasse da entrega dos impressos, por exemplo. Resolvi seguir suas orientações e decidi que não só participaria da entrega dos impressos, como também entraria para o Keibe e para o grupo Mamorukai.

Sofri muito nos primeiros meses mas venci, graças a minha prática sincera e as orientações desta veterana.

Minha pressão se estabilizou e hoje se altera esporadicamente. Já se passaram três anos sem o maldito cigarro.

Com o passar do tempo, fui adquirindo sabedoria, e passei a encarar um problema muito sério que tinha, mas que não admitia, ou não conseguia enxergar como problema.

Descobri que era alcoólatra.

Sou filha de pai alcoólatra e sofri minha infância toda devido a isto.

Meu pai nos expulsava de casa quase que diariamente, nos ameaçava com revólver, facas, quebrava tudo o que havia dentro de casa e nos humilhava com os piores palavrões que vocês possam imaginar. Tínhamos que nos abrigar na casa de minha avó, onde já viviam cinco pessoas em dois cômodos precários. Dormíamos em esteiras pelo chão de tijolo da cozinha.

Meu pai era uma pessoa muito boa, sem beber, mas a bebida o transformava.

Sofremos muito com isto, ele por muitas vezes tentou parar de beber, mas não conseguiu.

Minha família se despedaçou quando completei 18 anos.

Minha mãe nos chamou e comunicou que estava indo embora definitivamente de casa. Que não podia alugar uma casa para ficarmos juntos, então, que cada um se virasse como pudesse.

Fomos cada um para um lado. Minha mãe para uma pensão, eu para outra mais próxima ao meu trabalho, meu irmão mais velho para outra e o do meio, que não estava trabalhando, foi morar com minha avó.

Resumindo, alguns anos após, meu pai foi encontrado morto por um vizinho, sentado em uma poltrona em sua casa.

O alcoolismo com certeza é um de meus carmas pesados.

Tive a felicidade de descobrir que sou alcoólatra graças a minha prática. Vocês devem estar pensando, mas isto é felicidade?

Para mim foi uma grande felicidade. Pois se não fosse a minha prática, não teria a sabedoria para descobrir este problema.

A minha família também estava se despedaçando tal qual a do meu pai.

Minhas filhas foram morar sozinhas, tão logo completaram 18 anos. Uma após a outra.

Com certeza, morar comigo deveria estar sendo insuportável.

A partir daí, comecei a lembrar de tudo o que já havia feito devido à bebida. Estava seguindo os mesmos passos de meu pai.

Quantas vezes dirigi alcoolizada com meus filhos no carro. Quantas vezes briguei com eles, gritei, bati e ofendi.

Fui me afastando cada vez mais de meus filhos. Só pensava em beber e me divertir.

Aconteceu que depois que eu parei de fumar, passei a beber ainda mais, como que para compensar a falta do cigarro.

Eu já estava praticando mas ainda não tinha a consciência do meu problema.

Determinei parar de beber. Sabia que estaria iniciando uma batalha muito difícil, mas tinha a certeza de que não existe oração sem resposta, que eu haveria de ser vitoriosa.

Eu não estava praticando apenas porque achava o budismo uma religião bonita. Eu estava e estou praticando porque acredito, tenho fé, creio no meu Gohonzon e conseqüentemente em mim mesma.

Em “Sobre atingir o estado de Buda”, há uma passagem que diz:  “Se o senhor deseja livrar-se dos sofrimentos de nascimento e morte que vem suportando por eras eternas e deseja alcançar a suprema iluminação nesta existência, deve despertar para a verdade mística que sempre existiu dentro de sua vida. Esta verdade é o Myoho rengue kyo. Recitar o Myoho rengue kyo, portanto capacitá-lo-á a compreender a verdade mística dentro de sua vida.”

Determinei fazer no mínimo 3 horas de Daimoku diárias por 100 dias consecutivos. E se preciso fosse, renovaria minha determinação por mais cem dias.

Quantas vezes acordei às 3 horas da manhã para fazer Daimoku nos dias de Mamorukai no CCCamp! Não havia domingo nem feriado sem Daimoku.

Já se passaram dois anos que eu venci!

Tenho a certeza absoluta que nunca mais vou beber. Nem foi preciso renovar minha determinação porque dentro destes cem dias eu já havia conseguido.

Hoje posso me orgulhar desta vitória e posso estar contando a vocês porque tenho certeza que nunca mais vou beber! (bebida alcoólica claro)

Quem pôde comemorar comigo meus três anos de conversão, viram meus filhos me abraçando, orgulhosos de mim.

Com certeza esta foi a minha maior vitória.

Eu havia determinado que transformaria meus filhos em grandes valores humanos.

Infelizmente o meu carma se manifestou mais uma vez, tragicamente em minha vida.

Fiquei viúva aos 28 anos, devido a um acidente de carro. Minhas filhas estavam com 4 e 6 anos.

Na época, estava longe de eu conhecer o budismo, então não tinha compreensão do que é carma, lei de causa e efeito, etc.

Fiquei revoltada, me sentindo a mais infeliz das pessoas. Não podia ver ninguém sorrindo que tinha vontade de bater nesta pessoa. Como podia alguém estar sorrindo, feliz, e eu sofrendo tanto?

Após um ano, ainda sofrendo os efeitos da incompreensão, tive anorexia nervosa, ficando internada em uma clínica em São José dos Campos por três meses e precisei de acompanhamento psiquiátrico por mais de um ano, tomando medicamentos fortíssimos.           

Agora, como vocês sabem, perdi minhas 2 filhas e meu genro, também de acidente de carro.

É uma dor que vocês não tem idéia, só quem passou por isto sabe definir, sabe explicar.

Quando soube do acidente, sem saber ainda da gravidade, enquanto esperava por mais notícias, abri meu oratório e orei ao gohonzon, determinando que fosse o que fosse que tivesse ocorrido, que eu seria forte o bastante para suportar, e teria forças para continuar minha luta pelo kossen-rufu.

No gosho “Carta aos irmãos” consta que “Se professar o verdadeiro budismo, os sansho shima surgirão em sucessão. Por este motivo, jamais deverá ser influenciado ou amedrontado por eles. Se cair sob suas influências, será levado ao caminho do mal e se ficar amedrontado por eles, será impedido de praticar os ensinos do Verdadeiro Budismo.”

Ainda em “Carta aos irmãos”, Nitiren diz que “Temos de ser os senhores de nossa mente, e não deixar que nossa mente nos domine.”

Já chorei muito, choro ainda, quando aperta a saudade, mas procuro não ficar pensando muito.

Longe de querer me comparar ao Presidente Ikeda, mas ele perdeu um irmão na guerra, e mais tarde perdeu também uma filha, e jamais desistiu. Hoje, na idade em que está, luta como nunca. Eu como sua discípula, tenho o dever de jamais desistir, haja o que houver.

Na realidade, minhas filhas não morreram, apenas estão passando para outra vida e com meu daimoku de mãe e o daimoku de vocês, meus amigos, elas renascerão em um estado de vida superior, com certeza em uma família praticante.

Compreendi que elas tinham uma missão nesta existência, porque eu comecei a praticar o budismo por sofrer com desarmonia familiar, principalmente com elas. Não entendia que a causa estava em mim.

Por este problema, me entreguei a esta religião maravilhosa, procurando fazer minha prática corretamente, me dedicando a leitura dos impressos, ao estudo, participando de todas as atividades, fortalecendo cada vez mais a minha fé.

Sem a fé, a prática e o estudo, não conseguiremos transformar nada em nossas vidas. O estudo foi fundamental para que eu compreendesse o ciclo de nascimento, doença, velhice e morte, e foi fundamental para que eu pudesse passar este conhecimento a outras pessoas que estavam sem compreensão e com isto, sofrendo muito.

Devido a este estudo, que eu me dedico, pude passar tranqüilidade e serenidade para meu filho que tem apenas 12 anos e era muito apegado às irmãs.

Meu relacionamento com minhas filhas ficou ótimo, nos tornamos grandes amigas. Através de meu daimoku, elas também melhoraram muito como seres humanos. Mesmo não morando juntas, estávamos sempre juntas, sempre nos falando nem que fosse por telefone. Elas me respeitavam e eu as respeitava. E acima de tudo, nos amávamos.

Se não fossem minhas filhas, eu não teria procurado fazer minha revolução humana. Nós não mudamos nossa personalidade através da prática, apenas eliminamos o que não presta e fazemos evidenciar o que há de melhor em nós.

Aí terminou a missão delas para comigo. Mas não terminou a mais importante missão que elas tinham. A de propagar o budismo através de sua morte. Muitas pessoas estão me procurando e procurando outros membros para saber sobre o budismo que ficaram conhecendo com a morte delas.

Esta missão também é minha porque quem tem de dar continuidade à propagação agora sou eu.

E eu determino aqui que vou dar o melhor de mim, podem ter certeza disto.

Para isto, também conto com vocês, e preciso que todos vocês se dediquem ao estudo, para me ajudar nesta missão de transmitir o ensino às pessoas de nossa sociedade. Nosso lema é: “Caçapava de contínuas vitórias”, e agora chegou a nossa hora. Precisamos estar bem preparados para os questionamentos que virão. Por isso, dedique-se ao estudo com afinco, porque existem pessoas que não se contentam em comer o bolo para depois pedir a receita, elas querem a receita inteira, bem explicadinha, para depois experimentarem o bolo.

Agradeço a todos que me apoiaram e me confortaram neste momento difícil de minha vida, especialmente aos amigos Carlos Tavares e Fátima Lima que não pouparam esforços para aliviar a minha dor.

Para finalizar, quero ler para vocês um poema do presidente Ikeda, que é o meu lema:

“Existe uma estrada

E esta estrada é a estrada que eu amo.

Eu a escolhi.

Quando trilho esta estrada

 As esperanças brotam

E o sorriso se abre em meu rosto.

Desta estrada nunca, jamais fugirei.”

     Cármen Sylvia Soares - accioly55@yahoo.com.br

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